segunda-feira, 16 de agosto de 2010

ENTREVISTA COM O CORONEL ROBSON UPPs FÓRUM DE SEGURANÇA

NTREVISTA DO MÊS


Coronel Robson Rodrigues
Novo comandante das UPPs no Rio
Nome: Robson Rodrigues
Cargo: coronel da Polícia Militar e novo comandante das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)
Idade: 47 anos
Carreira: Com 25 anos de experiência na PM do Rio, é formado em direito e mestre em antropologia. Comandou o Batalhão de Choque e a Coordenadoria de Análise Criminal (CAC). Foi também coordenador dos Conselhos Comunitários do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP/RJ).

Um dos temores da população do Rio de Janeiro em relação ao processo de pacificação de favelas antes dominadas por traficantes armados é a migração do crime para outras regiões da cidade.

Mas os cariocas podem ficar tranquilos sobre isso. Pelo menos, é o que garante o novo comandante das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o coronel da Polícia Militar Robson Rodrigues. De acordo com ele, o criminoso pode até ter migrado, mas a criminalidade não migra, o que seria comprovado pela queda das estatísticas criminais em todo o estado.

Em entrevista exclusiva, o coronel afirma que, com a desterritorialização do narcotráfico pela polícia, o traficante perdeu sua estrutura e, mesmo que se mude, não leva consigo a rede de influência que tinha no território que dominava armado.

O comandante explica que, ao quebrar a lógica da violência, marcada pela arma de fogo e de guerra, os padrões da criminalidade mudaram completamente. "Com a presença maciça da polícia e da unidade pacificadora, não há a criminalidade violenta", garante.

O passo seguinte, segundo o coronel Rodrigues, é estimular a restituição de uma ordem política e social cidadã nos territórios ocupados. Nesse sentido, ele conta com a experiência de ter sido coordenador dos Conselhos Comunitários do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP/RJ).

Com 47 anos de idade e 25 de PM, o coronel Robson Rodrigues vem se destacando na gestão do atual comandante-geral, coronel Mario Sérgio de Brito Duarte: comandou o Batalhão de Choque, onde treinou a tropa para ocupar as favelas junto com o Batalhão de Operações Especiais (Bope) e, em seguida, graças a sua experiência acadêmica – é formado em direito e mestre em antropologia -, assumiu Coordenadoria de Análise Criminal (CAC), com a missão de implantar na PM a estrutura e a cultura da coleta e sistematização de dados criminais e administrativos para embasar o planejamento de políticas públicas de segurança.

Há um mês no Comando de Polícia Pacificadora (CPP), ele agora assume a frente na principal política de segurança do estado.

Os traficantes estão migrando das favelas ocupadas para outros lugares?
Não tenho nenhum indicador, nenhuma pesquisa, que possa me apontar isso. Só se eu botasse um GPS em cada um. O que não migra - e posso provar - é a criminalidade, porque os números em todo o estado têm caído. Isso mostra que o traficante perdeu sua estrutura, o que comprova uma hipótese que já tínhamos, que é a de que é o território que possibilita a criação das redes ilícitas, a rede criminosa do narcotráfico, de escoamento, que propicia a aquisição de armamento e a violência no final. O criminoso pode até ter migrado – não tenho como afirmar – mas a criminalidade não migra, porque não aumentou. Ele não leva com ele a sua rede de influência.

O objetivo das UPPs é acabar com a violência armada ou coibir o tráfico também?
O objetivo é desterritorializar o narcotráfico, dar segurança para que estes territórios possam ser restituídos a uma ordem política e social e promover a inclusão dessas pessoas. O crime, como fenômeno social, não acaba. Pode ser controlado a patamares aceitáveis pela sociedade, mas os padrões mudaram completamente.

Hoje, com a presença maciça da polícia e da unidade pacificadora, não há a criminalidade violenta. Pode haver esporadicamente um crime ou outro, mas a gente pode contar com a ajuda inclusive de uma rede solidária de proteção cidadã e de informações que nos ajuda a prender as pessoas sem os enfrentamentos que havia no passado. É isso que se destaca. Antigamente ficávamos enxugando gelo.

Por que a venda de drogas continua em favelas com a presença de UPPs, a exemplo da foto de traficantes atuando na Cidade de Deus, publicada recentemente no jornal O Globo?
A venda de drogas pode acontecer em qualquer lugar. O que acontece é que os padrões mudam. Dizer aqui que acabou o tráfico seria completamente utópico. Nem o projeto prevê isso, não é o objetivo. Mas esse crime ocorreu sem a presença da arma de fogo, que era a grande marca de traficantes e do empoderamento do tráfico naquele local.

A criminalidade que está ocorrendo hoje nos indica algo que é o objetivo da UPP: quebrar a lógica da violência, tirar a marca do empoderamento do narcotráfico, que é a arma de fogo e a arma de guerra.

A Cidade de Deus hoje tem indicadores de homicídio de cidades de primeiro mundo. As imagens foram feitas em maio por policiais para uma investigação, com o objetivo de prender toda uma rede, como aconteceu há pouco tempo, quando 30 pessoas ligadas ao narcotráfico foram presas sem nenhum tiro e nenhum enfrentamento, como havia no passado. É um trabalho de inteligência. Infelizmente essas imagens vazaram, por alguma inconsequência.

Os Complexos do Alemão, da Maré e a Rocinha terão UPPs?
Nós vamos chegar, faz parte do projeto. A gente aprende a cada dia, a cada ocupação, se alimenta com informações, aprende praticando. São ensaios e erros com os quais vamos contruindo um know how para poder chegar aos grandes complexos. Há toda uma logística e uma parte administrativa, que, por serem novas, estamos em contínuo aprendizado para cada vez aperfeiçoar o programa, táticas e estratégias para chegar melhor e diminuir os riscos.


Esses lugares vêm sendo mapeados pela Inteligência e têm um plano traçado, que vamos alimentando com mais informações para chegarmos muito bem preparados. A Secretaria de Segurança capitaneia esse planejamento com inteligência e tecnologia de informação para diminuir muito os riscos, não só aos policiais, mas principalmente em relação aos civis. Quanto menos enfrentamento melhor.

Quais os próximos passos do programa das UPPs?
Até o fim do ano temos o plano de implantar mais 15 UPPs. A próxima é a do Andaraí, onde já está o Bope e o Batalhão de Choque, que vão sair para a entrada da UPP, agora no fim do mês (julho).

Alguns líderes comunitários e sociólogos afirmam que as UPPs instauram "estados policiais" nas favelas, transformando-as em "prisões sociais". Como o senhor vê essa crítica?

Percebo também. É um programa novo. É preciso acertar isso na prática. A gente deve buscar interferir cada vez menos. Isso é uma construção progressiva, um processo. Há uma intervenção militar mesmo, num primeiro momento, do Bope com o Choque, depois vêm as UPPs, e esse ponto de equilíbrio tem que ser alcançado na prática.

A ideia nossa é que a polícia se retire o mais rapidamente do cenário. Quanto mais essa relação de confiança e esses valores da cidadania forem introjetados, menos vai precisar de polícia, e vou diminuir o efetivo, diminuir a intervenção. É errado a polícia transformar aquilo num estado policial.

Qual é o novo papel do policial, então?
A ideia é que o próprio policial, com a prática e a sensibilidade, possa perceber e ele mesmo introjetar essa confiança mútua. Essa prática positiva de relação legítima e civilizada entre polícia e cidadão vai criar uma nova cidadania e a polícia vai ser mera indutora da participação democrática cidadã, identificando fatores de mobilização, estimulando a prática cidadã com a criação de Conselhos Comunitários e a eleição de representantes, que podem ser ou não da associação de moradores, para pluralizar esse processo. Quanto mais robusta essa relação de confiabilidade, menos polícia, menos força é preciso fazer.

Como a Polícia Militar lida com os desvios de conduta denunciados pela população?
Realmente são desvios mesmo. Não só o desvio administrativo como qualquer crime praticado por policial é um desvio, e não uma regra. A ideia é que a própria legitimidade do programa possa criar uma rede de controle social informal, que abertos os canais com as comunidades, a conduta do policial seja colocada ali frente a frente, cara a cara, na presença do capitão. A aproximação faz com que as pessoas tenham mais possibilidade de denunciar o policial que se desviar do padrão de conduta e de filosofia de polícia de proximidade. Temos verificado que esses mecanismos de controle social informais são construídos com relação de confiança entre a polícia e a comunidade.

E o que é feito nesse sentido?
Temos buscado melhorar os canais e aprimorá-los. Vamos ter uma linha direta para isso no Disque Denúncia. Estamos estimulando a criação de Conselhos Comunitários de Segurança dentro das comunidades, contactando associações de moradores, para que possamos mostrar como é a forma da atuação do policial, como ele deve agir, e organizar ao máximo a sociedade, dando os primeiros contornos de uma sociedade civil verdadeiramente organizada para pleitear seus direitos de forma organizada e também para que as regras sejam definidas e colocadas de forma clara, para que o cidadão possa ter uma previsibilidade de conduta da polícia.

A polícia deve se mostrar de uma forma previsível, e não como muitas vezes, equivocadamente, houve no passado, de forma arrogante, arbitrária e consequentemente ilegítima, o que poderia criar um afastamento e destruir qualquer início de credibilidade e qualquer iniciativa de tentar uma construção de legitimidade e confiabilidade.

A ideia é estar presente e próximo para que as pessoas construam esses mecanismos de controle social informais que vão nos facilitar o trabalho de correição. Não vai ser preciso haver um serviço muito avolumado de correição porque a gente conta com a comunidade.

Os policiais que cometem desvios hoje são punidos?
São. Se o capitão detecta algum tipo de insensibilidade comunitária do policial, se percebe que ele não assimilou os ensinamentos e projetou os valores, a orientação é retirá-lo, de uma forma pró-ativa, para que seja reciclado, e reorientá-lo, até para evitar que um desvio ou alguma arbitrariedade ou conduta equivocada possa acontecer.

Entrevista feita por Marina Lemle, para o Comunidade Segura. Este texto foi produzido a partir de uma parceria entre o Comunidade Segura e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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Um comentário:

  1. O Coronel Robson no meu ponto de vista é um oficial altamente capacitado para comandar as UPPS.

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